Siamak's lessons

 

Não sei se alguma vez falei das minhas aulas de conversação. Quando se tornou premente ter que arranjar em que matar as horas dos longos dias decidi que uma maneira proveitosa, à maneira do que fiz em Udine, era matricular-me num curso de inglês. Não foi fácil encontrar pois a maior parte eram intensivos o que significava 5 a 6 horas por dia e isso também não queria.

 

 Um dia, num dos meus passeios para os lados do Mont Royal, dei com o College Platon. Este instituto de línguas, segundo o que lá está escrito propõe-se ensinar qualquer língua, mas claro está que o seu forte é o Francês e o Inglês. Ali há alunos de todo o lado que vêm muitas vezes com visto de turistas e que em três meses procuram aprender uma das línguas. Assim já encontrei uma albanesa, vários coreanos, chineses e chinesas( falando um inglês aos saltinhos!), mexicanos aos montes, brasileiros, venezuelanos, um cambodjano…e por aí além! Um destes dias disseram-me que tinham um pedido para ensinarem Português e se eu não estaria interessada. “Of course not”, eu já nem para mim sei gramática suficiente quanto mais para ensinar! E tendo sido eu professora para onde teria ido o meu brio de ser eficiente se tivesse aceitado?

 

Mas de o que eu quero falar é das minhas aulas de conversação. O Siamak é o professor, tem 42 (o que não é relevante para nós mas que na imprensa escrita eles fazem sempre questão de a referir …” John, 42 was acused of…”). Adiante, o Siamak é iraniano, saiu do Irão há algum tempo, já com o curso de medicina estando a tentar ser admitido para doutoramento aqui, mas como é preciso ganhar dinheiro há três anos que é ali professor…

 

Ensinar é uma arte, e nem todos são artistas! Mas ele é!

Sendo aulas de conversação, o que é fundamental é conversar e para isso é preciso algum vocabulário e ter capacidade de se expor, o que nem uma coisa nem outra sempre acontecem. No entanto ele é capaz de por toda a gente a falar! Um dos segredos é escrever no quadro uma ou duas perguntas ou assuntos polémicos para discutir e claro, são tão polémicos, que mesmo quem é “envergonhado” quer participar! 

 

 A Maha é egípcia, muçulmana, com os cabelos tapados como manda a sua religião, o marido leva-a e vai busca-la e como imaginam é muito tímida, mas não é que ultimamente ela está muito mais participativa? Um dia destes confessou-me a mim e à Yelena (cubana com avós russos e que saiu de Cuba já há 18 anos) que nunca pensou conseguir falar no meio de tantas pessoas estranhas!

 

Como não ter vontade de se expressar quando o assunto é “direito dos animais” e se põe  a questão de que se uma formiga, um escorpião têm os mesmos direitos de um cão, um cavalo ou um chimpanzé? Ou quando se escrevem no quadro seis estados psicóticos, com as respectivas características e se nos pede para nos pronunciarmos e porquê, aquele/a com a qual não nos importariamos de viver? A resposta “nenhum” não era permitida. 

 Outros dias há 10, 15 minutos filme que depois tens que ir contando depois da “deixa” do primeiro, ao qual se vão seguindo um a um todos os alunos que estão na sala. “You” diz o professor porque com os alunos sempre a mudar nem sempre  consegue lembrar de todos. Se Maha, Dalma, Mário,Matias ou Yelena são fáceis o mesmo não acontece com os chineses, japoneses ou coreanos!

 

 São realmente aquilo que eu chamo “aulas a cores”. Mas, depois, há que saber para o dia seguinte todo o novo vocabulário e como disse ninguém escapa!

 

p.s. desculpem, hoje alonguei-me de mais mas espero que não tenham desistido a meio.

publicado por naterradosplatanos às 16:42 | link do post